domingo, 11 de dezembro de 2011

De um lado a beleza, de outro o sofrimento

 Hoje a tarde passamos por Purmamarca uma cidadezinha quase feita de areia e pó a vinte minutos de Tilcara. Já estamos quase na fronteira com Bolivia. Agora a chuva cai lenta assim como esse povo que caminha com olhos e cabeca para baixo por entre as montanhas coloridas . Nunca vi um lugar tao maravilhoso e chego a sentir tristeza.
O povo aqui tem tracos bolivianos, tanto na cor como no cabelo. Mas os olhos dessa gente me dizem mais. Olhos que focam em um só lugar e que , apesar de ainda estarmos em terras argentinas, continuo achando que aqui é Bolivia. Talvez tenha me acostumado com os portenos e aquela maneira empinada de falar. É que Buenos Aires nao é Argentina? e estando aqui, penso que lá na capital a bolha comeca a crescer entre eles.
Aqui venta muito, estamos a dois mil e poucos metros e areia entra nos meus olhos. Talvez seja bom por agora, talvez eu nao queira enxergar que estamos naquela parte nao PULCRA da América do Sul e eu queria que o mundo olhasse pra essa gente de rosto forte de maneira distinta, nao como inferiores.
E fomos nós, ora bolas, porque essa gente anda assim como avestruz? Nós decidimos quem está em jogo, e qual é a bola da vez.
E me sinto uma turista branca de cabelo loiro e isso nao me apetece.
Quero acreditar em nós, no povo latino, na nossa maneira pura de bailar.
Por um lado a natureza quase explode de tanta beleza, por outro o sofrimento, a pele pedindo socorro, dinheiro trabalho, justica e tudo isso vai estar aqui dentro de mim pelo resto da vida.









Adíos Salta, estou em Tilcara

Nos despedimos de Salta as 5:30 da manha.
Já me acostumei com a palavra despedida. Deixar pessoas, lugares, ruas, becos, amigos, família, cidades, casas. .. o tempo passa e sempre penso que estou preparada para dar adeus, mas quando busco todas essas histórias sinto que fico cada vez mais emocionada e apegada a tudo que encontro por aí bailando no mundo.
Salta é uma cidade especial. Tenho tantos adjetivos, imagens, mas eles estao confusos.
Chegamos em Tilcara as 10:00 da manha. Estava dormindo no caminho e de repente aquele conglomerado de montanhas. Levei um susto e por segundos me perdi... cheguei perto de Deus e eu nao costumo falar dele, mas hoje eu senti essa natureza que quer falar  e Deus está, e ele é o universo. Me senti tao pequena, uma formiga no mundo, vagando sem rumo.
Peguei a máquina e num impeto me senti um turista japones que clica sem parar e eles vao engolindo todos os lugares, areias, arvores, gente, mercados, comidas... cultura.
As montanhas em Tilcara fazem chorar, e de novo, eu digo: é coisa divina, magia... saravá.
Quadros coloridos, pinceis... aquarelas do norte argentino. É sério, todas as cores estao aqui, nessas montanhas abencoadas pelos deuses e por nós.



sábado, 10 de dezembro de 2011

América do Sul Tour: Salta, Argentina

Nao tenho muito tempo para escrever no blog, a viagem comeca sem acentos nas palavras, como agora.
Chegamos a salta e fizemos uma viagem tranquila desde Buenos Aires. No caminho, as nuvens deixavam suas marcas nas montanhas, sombras gigantes e escuras, mas a chuva, por sorte, se perdeu no ceu azul de tanto azul. Minha segunda vez em Salta: lembrei da Elena e do Juanvi, como foi especial aqueles dias de setembro e agora a vegetacao comeca a surgir. O verde das arvores, a estrada que segue reta e termina numa reta.
Salta é cidade divina. Ontem subimos a montanha e de lá a cidade pulsava luzes. O clima fresco e o sol dando adeus.
Hoje fizemos um churrasco vegetariano, ainda temos que conhecer os museus e as múmias de 500 anos de idade e que ainda estao aqui, conservadas. Um arrepio e nos sentimos em territoria inca e a memoria volta a anos luz, num impeto voltamos ao nosso tempo e as múnias estao apenas dentro de vidros, congeladas.
Amanha chegamos a Purmamarca, mas isso é outra história. Ainda estamos aqui em Salta, La linda.





segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Cartas online de Madrid


Mis queridos Natalia y pelotudito, 


Lo primero de todo, no os hacéis una idea de lo que os echo de menos, a vosotros, a Brasil, a Brasilia, el viaje, la aventura constante, Latinoamérica, su ritmo, sus sonrisas gratuitas, sus siempre sorprendentes desenlaces… Por eso he tenido que desconectarme un poco de todo aquello, porque me estaba costando mucho salir de la nostalgia infinita y las ganas de estar allí… Buffff empiezo a escribir y se me llenan los ojos de lágrimas, pero ya son demasiadas. 
Bueno, lo importante, dentro de un par de días comenzáis vuestro viaje. Y va a ser sin duda una de las cosas más emocionantes que hagáis en la vida. Aprenderéis más que en todos los años de escuela o universidad. Recorrer kilómetros y sentirlos, llenaros del polvo de las carreteras aún sin construir, contemplar el paisaje y guardarlo en la memoria para siempre, respirar el aire puro de Bolivia, hablar con todos, escuchar sus historias y sobretodo sentiros libres y dueños del mundo. Es lo que yo viví. 

Yo aún viajo por las noches a Bolivia, respiro su aire puro para llenarme del oxígeno que a veces me falta en Madrid. También voy a los Lençois Marahenses y me lleno de la energía del sol brasileiro y del azul puro del agua. Y me voy a Salta y vuelvo a aquel día en que salimos del locutorio y allí estabais…con vuestras mochilas y vuestros abrazos…y me voy al mirador y bebo ese vivo dulce con vosotros mientras atardece…y luego nos vamos a Cafayate y cogemos un tren de 36 horas…y luego Buenos Aires…
Sois las dos personas más llenas de vida que conozco, asique hacer lo que mejor sabéis, inundar de alegría todo a vuestro a paso, como siempre. Espero noticias y lo que más espero es ese reencuentro en Septiembre, cuando compartamos las experiencias con unas buenas caipirinhas! Y ver vuestra exposición y daros un enorme enorme beso! Os quiero!


Elena

PD: Decir a Leti que la deseo un viaje increible, que espero que no sea muy dura la despedida de buenos aires y que nos vemos pronto, todos!!aiiiiiii mi leti chicletiiiiiii!!! 
PD: a menina dança!!! ainda dança! sempre sempre dança!

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Janela nua


Depois que o Miguel quebrou o vidro do banheiro, o barulho dos carros, ônibus, carros, sirenes e sirenes entram nos meus ouvidos quase que interrompendo o meu banho. 
E quando me entrego e mergulho na cachoeira porteña, que aqui defino como chuveiro, e, em seguida fecho os olhos, o ruído ainda está aqui, como um tormento diário. O fato é que, antes os sons eram quase abafados pelo vidro, agora, o barulho estridente chega de uma vez  só até o sétimo andar do nosso apartamento na Avenida Santa Fé, em Buenos Aires. 

Passaram-se dias, noites, semanas, novembro  chegando ao final, janela nua, janela nua? O barulho, por mais incomodo, me chamava para algo:  podia ouvir sua voz "venha ver, seja curiosa". 

Dia normais, banho no final da tarde e o barulho, barulho, ruuuuulho, lhoooo, janela quebrada. Num impulso, levanto um pouco os pés e meus olhos sincronizados também com os meus pés atravessam a cidade afora. Janela quebrada. Olho a cidade aqui de cima e o céu, hoje, têm manchas vermelhas, quase tomates fritos. Interrompi meu banho e saí correndo para pegar a máquina fotográfica. Tirei algumas fotos e voltei para a cachoeira novamente. As manchas se foram depois de alguns minutos abrindo caminhos para o início da noite. 

Essa cidade tem lá os seus segredos noturnos e diurnos, ao menos daqui, do sétimo andar. Fiquei olhando por minutos, e eu confesso, muita água entrou pelo ralo. Pensei em tanta coisa e explorei portas como Amelie Poulain. 

Da janela posso ver a sacada do apartamento ao lado e logo me veio uma imagem: um cara não muito jovem com uma máquina semi-profissional começa a anotar os horários em que cada pessoa toma banho. Janela quebrada. Depois de meses, ele sabe, mais o menos, quem toma banho em tal horário. Todos os momentos íntimos são gravados, no entanto, o único plano que esse tal homem consegue captar está acima do pescoço. Numa noite, olho para a cidade, pois você já sabe, janela quebrada. Primeiro olho para frente, depois para o lado direito e de soslaio, quase não acreditando e o olho a saltar, porém, devagar, vejo um homem na sacada com uma câmera. Pensei: talvez ele esteja gravando a cidade, fazendo um documentário, não sei. Talvez ele seja um grande admirador da noite ou do dia. Talvez o arroz e o bife com cebolas esteja no fogo e ele está ali enganando a fome. Não sei, de verdade. No outro dia, entro no banheiro e janela q., e de curiosa, pois a janela está q. olho para a sacada, nada de homem, nada de câmera, nada de cebolas e arroz. 






Depois que o Miguel quebrou o vidro da janela pensei em tanta coisa e abro portas como A. P: duas janelas do hotel em frente a minha janela q., em uma a luz está normal, na outra elas piscam. Escolho a luz que pisca. Problemas elétricos? Crianças brincando de apaga acende? e a mãe gritando do banheiro "parem com isso, vocês vão queimar a lâmpada e vou ter que pagar o prejuízo". Jovens fazendo festa? Uma mulher com síndrome do pânico tentando vencer o medo do escuro? Um eletricista? Um viciado em blenflogin? 

Talvez, um dia, descreva como Roberto Artl, "las ventanas iluminadas"de Buenos Aires. Por agora, a ansiedade ganha. Faltam 16 dias, passaram-se dois dias e ainda não consegui dormir, talvez agora 9:37 da manhã. 

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Quase lá...





Oie queridos amigos solidários do Brasil! 
Dia 8 de dezembro começamos nossa viagem por Argentina, Bolívia, Peru e Brasil (norte, nordeste, centro-oeste e sudeste), no total vamos andar mais de 14 000 km, de modo que, precisamos da ajuda de todos os grandes amigos que pensam sobre o valor que uma viagem pode proporcionar a uma pessoa, no sentindo das experiências vividas, dos encontros verdadeiros e das alegrias compartilhadas. O valor mínimo é R$ 5,00 pelas regras do site. Mas por fora estamos aceitando até 0,05 centavos. Se alguém quiser tirar dúvidas sobre a viagem e outras informações fale com a gente. 
Deixe de comprar aquele Trident ou aquele maço de cigarro !!! E ajude a gente!! 
Desde já agradecemos com muito carinho e amor.

Natália e Miguel


quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Primeira publicação no Idealistas.org


Un mundo más humano y justo para cada ciudadano


featured
Imagen de Natália Goulart
Por Natália Goulart (Argentina-Brasil)
“Si es por buscar, mejor que busques” (Martín Caparrós)

Últimamente nos estamos familiarizando a escuchar las voces de los indignados reclamando un cambio global en el mundo.

De África a Asia, de América a Europa, más de 80 países se unieron el pasado 15 de octubre por una transformación en la situación política, económica y social. Más allá de la lucha ante el sistema capitalista que privilegia unos pocos, la corrupción de las grandes corporaciones y la clase política, la gente se manifestó también por una búsqueda más humana: la libertad de todos, para y con todos, la busca por un camino más justo para cada ciudadano.

En Buenos Aires, la gente tomó la plaza de Congreso y siguieron rumo al Obelisco. Los tambores, los carteles de protesta, los colores y narices de payasos hicieron de la marcha un gran encuentro de la fuerza colectiva.  De sonrisas irónicas pero también de rostros preocupados con el rumo del mundo, las voces cantaban en sintonía “que no, que no, que no nos representan”.

La gente está  volviendo a las calles en búsqueda de una democracia auténtica y representativa. Ese día fue, además de un encuentro entre millones de personas de los cinco continentes, una demostración de queno estamos sólo reflexionando sobre el mundo, sino actuando para y con él.


Ante esta reflexión otra para todos los que nos leen, ¿si hubiese una sola cosa que tú pudieses hacer para mejorar el mundo, qué sería?

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Coisa de gente



     "Te mando retalhos de amor"  (Caio Fernando Abreu)

Eu amei, tenho que confessar. O tempo não fez nada, nós nos deixamos e fomos pequenos demais . Eu sou pessimista, eu amei. E se tivéssemos feito um cronograma de viagens? Ora, nada disso adiantaria, amar é estar e mais alguma coisa que eu não sei. Eu não estava. Dissimulei. Eu menti pra mim, pra você. Fui um boêmio e essa palavra já explica tudo.

Eu olhava aquele enxame de mulheres caminhando para si mesmas, uma liberdade que jamais tive. Mas eu ainda tinha o seu cheiro em mim e fui ficando e me tornando pássaro. E quanto mais eu plantava meus pés ali, o seu perfume, ao poucos, seguia outro rumo. Lembro que havia uma escada de madeira pobre e o cheiro me convidava de tal maneira que eu me entregava aqueles lençóis encardidos, aquela música brega de fim de noite. 

O amor abre tantas portas. Eu sentia ódio. Ódio da sua cara e da sua maneira de olhar as coisas. Você mirava de soslaio, eu nunca gostei disso. O problema é que você amava incansavelmente o seu espelho, por consequência, eu também fui buscar o meu num banheiro sujo de esquina perto da rodoviária. 

Eu separava os mundos. As pessoas não entendiam, mas eu fazia desenhos no ar e polarizava você e eu. Meu desejo era meu e de mais ninguém. Por que sempre temos que falar de nós? O amor é meu, o amor é seu. Mais a gente insistiu no nosso amor e eu sei lá, eu quis sair de nós. Eu necessitava abrir a geladeira com as minhas mãos e passar a manteiga no pão. Eu não queria passar minha camisa, entende. Mas isso faz tanto tempo e eu já não desenho quadrados. Gosto de círculos. Polarizar é esconder e já não falamos disso na academia. 

Eu amei, eu te amei. Os anos passaram. Você deve estar trabalhando num escritório cinza e entupido de mares-de-morro de papéis. Lembrei das estradas argentinas, de um lado soja, do outro soja. Sua mesa, penso eu, deve ter flores coloridas e você também foi pintada de cores fortes. A cidade de Salta (La Linda) tem montanhas, mas não são similares as nossas. Eu escrevo o que me vem. O Rodrigo acabou de tomar banho, mas você não o conhece. Eu tenho me apaixonado pela vida. Joguei minha gravata fora e comprei um chinelo marrom. 

Eu não gostava de te trair. Mas eu privilegiei meus desejos, os meus e só meus. Eu não dividi nada com ninguém, nem carícias, nem beijos, tampouco amor. Eu queria tudo pra mim, eu comi tudo de uma só vez. Confuso, complexo, contraditório, eu sei. E quando a gente combinava de jantar e no meio do caminho você desistia. Eu começava a rir e pensava: isso é coisa de gente. 

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Do começo ao começo

                                                                            Cada lugar  é, à sua maneira, o mundo  (Milton Santos)        








Da minha história ninguém me tira, o narrar é meu. Tem história que vira história única.Explico-me: a África foi e ainda é história única (selva, pobreza, selvagens... e vai por aí), Argentina (tango e tango) Brasil (samba, futebol e futebol).  E pergunto, quem escreveu a nossa história, a história dessas ex-colônias? Nós sabemos quem foi John Kennedy, e qual é o atual presidente da Costa Rica? Eu não sei.  Sabemos mais de Napoleão ou Simón Bolívar?
De modo que, por detrás dessa história única tantas outras ficam a mercê. O problema é que faltam pedaços.


"Os estereótipos não são de todo falsos, são incompletos"


Saí sozinha. Eu tinha uma única certeza: minha história de vida. O que se leva na bagagem? Memórias e toda uma vida. Saber contar minha história significa para mim estar no mundo, fazer parte dele e de outras tantas histórias.

Histórias tem haver com experiência, lugar, infância, comida, gente, cachorro, pé de amora... medo. Quando eu era criança fazia as malas e dizia para minha mãe: vou embora. E ficava ali perto da porta, mas logo voltava. O medo sempre esteve tão perto de nós, é como um avestruz que esconde a cabeça ali. 





Passado é coisa divina. Passado sempre está. Passado foi o último ponto que eu coloquei antes de começar outra frase. E agora já não sei. Passado é tanta coisa. 

Tive medo quando pisei no concreto. Concreto é coisa desconhecida. Cheguei de ônibus na Argentina. Cheguei por terra. Fui buscar, eu tirei a cabeça, literalmente. Medo é coisa que vem e vai. Ele foi também, igual a mim.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Eu fico tonta quando giro e você?


Eu queria, nesta exato momento, estar ao seu lado. Cheirar os teus cabelos como no futuro, um futuro próximo. 

Eu arrepio quando você fala: é como um vento que trota fazendo cócegas, querendo passar e deixar vestígios.Eu não sei, sinceramente, por onde andei, mas eu, eu, eu tenho você em todas essas viagens malucas, essas rodas abertas. A gente tem esse dom de girar. Eu fico tonta quando giro e você? Já faz um bom tempo que não ando em roda gigante. Tenho medo de girar e ficar ali num círculo contínuo.Pra quem gira o mundo é tao pequeno. É assim. 

Eu queria contar a minha história pra você, como da primeira vez. A minha história está maior,  já passaram tantas em mim e  surgiram outras tantas. O vento é tao ele, tal como ele. Você já é uma mulher, mas nós sabemos que as mulheres que habitam nossas veias estão por surgir. 

A distância de maneira alguma nos separou, tão pouco nos colocou fronteiras reais ou imaginárias. Não criamos histórias, não fomos dramáticas na hora da partida. Eu me permiti sair, você deixou e eu senti que você queria ficar. Eu sai com medo de te perder, no entanto, foi um sentimento muito passageiro, daqueles que não alcançam nem um fio inteiro de cabelo. 
Eu sei das suas esquinas e você sabe das minhas. É sentir um perfume particular misturado a outros, e você está ali, no meio de tantos. Eu nunca perguntei pra você quais são os cheiros que te fazem perder a cabeça. Talvez seja um pouco ácido caindo para o doce ou partindo para um damasco amendoim. Lembrei de um cheiro que te faz perder as estribeiras: cheiro de torta de limão, desse eu tenho certeza. Quizá seja cheiro de vinil da década de 70 ou cheiro de "Queridos Amigos". 

Nós tivemos uma fase de avestruz: enfiamos a cabeça, literalmente. É tão difícil esquecer as histórias, e mais, olvidar das nossas é impossível. Eu quero guardar todas elas, bem lá no fundo. Isso não significa esconder-las, pelo contrário, queremos revive-las todos os dias, no levantar dos olhos, no fazer das sobrancelhas. 

As vezes me sinto tão perdida. Uma palavra tua e já me acho. É incrível. 
Que sorte a minha, eu te encontrei no meio desse formigueiro mundial. Os encontros não acontecem todos os dias. Encontros de alma. Eu tive poucos ou muitos, depende de onde está e como está. 

Quero fugir com você para o lugar mais alta do mundo: não imaginei o monte Everest e nem os Alpes suíços, pensei nos teus olhos, únicos olhos. 

Fevereiro bate a porta e a primavera é triste sem você. De modo que combinamos um lugar, um horário, uma data, algo matemático. Isso não nos apetece, o relógio então. Nem me fale em relógio, estou por aqui...

Nos encontramos de supetão então, mas, por favor, o sol deve estar radiante.  

    


sexta-feira, 7 de outubro de 2011

El norte argentino


Mais uma exposição: Centro cultural Dardo Rocha, La plata.
Data: 20, 21 e 22 de outubro.

"A los pueblos se llega; a las ciudades se entra" (Martín Caparrós, El interior)














quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Si es por buscar, mejor que busques






Me defino agora: sou passado. Minha voz mudou e meu cabelo já não sei.
Mais é que o passado está em quase tudo que falo: rua silenciosa, carroça carregando frutas, vizinha saindo de casa as cindo da manhã, avião-pássaro, pé de amora que sujava minha roupa e minha mãe faltava me matar, passar anel, futebol, cachoeira, primeiros namorados.
O passado bateu a porta e ele veio que veio sem pedir licença. Entendo o seu desespero: há que cutucar coisas, há que estourar balões, há que remexer o feijão preso a panela.


Os mineiro têm fogões de seis bocas e os paulistas de quatro. Minha mãe falava algo assim: "tanta panela, tanta mistura, esses mineiros. !Silvana! como você quer emagrecer com esse fogão de seis bocas na cozinha e tem muita gordura nessa comida".


Tenho lembrado, tenho lembrado.
E é tão forte, uma dor no peito. Ele tem me rasgado e é tão bom.


Em que canto, nesses lugares que passei, você fugiu de  mim ingenuidade?
Ó minha mãe, o que você tem feito nessa cidadezinha de Minas Gerais?


"E nós, mãe.
Aquilo que eu não fiz e tudo quis.
A tarde igual, pelo sinal.
A minha voz na dela e a tarde doe."


Eu sei que você, minha mãe, não vai a igreja da matriz. E sua coleção de orquídeas? Elas têm escutado sua voz no corredor?
Sinto sua falta e já faz tanto tempo que eu sai pra correr perigo nesse mundão de Deus, né mãe.
E você gosta tanto daquela música "Tarde em Itapuã" e eu escuto agora e canto alto.
Estou buscando, minha mãe. Parece uma busca sem fim, sem tempo pra beber água.


Si es por buscar, mejor que busques (Martín Caparrós - "El interior")

quinta-feira, 19 de maio de 2011

"Pon un foto en la calle"


Confira minhas fotos selecionadas para a exposicao "Pon una foto en la calle", em La Plata, Argentina.
Local: Plaza Moreno
Horário: de 10:00 ás 18hs.
O evento será realizado pelo fotográfico platense, Marcelo Martinez, Top Color e municipalidade de La Plata
     Tema: "El cotidiano en tierras porteñas"














segunda-feira, 16 de maio de 2011

A roda, roda.



                                                     Roda Gigante, Natália Goulart
                                                                                           
Roda, roda gigante.
Roda que essa é a sua função.
Roda para trás, para frente.
Roda porque alguém vai entrar na sua roda.


Mas roda devagar.
Por favor, roda tranqüila.
Roda porque te pintei com pastel.
Roda porque te fiz num dia bom.

Roda, porque se não for a sua roda, o que haveria de ser?

domingo, 15 de maio de 2011

A biblioteca

Encontrei um lugar ótimo para escrever minhas crônicas, estudar e fugir do frio - a biblioteca da Universidade de La Plata. 

O silêncio reina por aqui. Escuto apenas as teclas barulhentas do meu computador cheio de plumas, o mudar de páginas dos leitores ferozes por livros e o leque da funcionária que anota os dados do entra e sai de gente. Quando cheguei, uma mulher mais jovem, morena e simpática me ajudou a conectar os cabos e a internet, depois apareceu outra, uma loira e um pouco sem paciência, agora, a protagonista usa óculos, é mais velha e tem um arco no cabelo.
Há pouco entrou um homem sério, barbudo e de óculos pequeno. Ele pediu alguns livros que não tenho a menor idéia de quem sejam. As páginas estavam tão velhas que os livros desmancharam em suas mãos. Talvez ele seja um historiador, um jornalista ou um físico, talvez faça uma biografia de algum homem importante do século XIX, talvez queira relembrar o positivismo. Ele ainda está aqui, concentrado e um pouco preocupado.
O teto é alto e branco, tudo é exagerado. Os móveis que aconchegam os livros são antigos, no entanto, ainda conservam sua beleza e brilho.
A mesa é espaçosa, as cadeiras são macias e estofadas de um couro verde escuro. Há também uma luminária verde que combina com as cadeiras, sua cor passa pelo cobre e chega ao grafite, resolvi chamá-la de retrô.
Não me arrisquei a pedir nenhum livro, tenho saudade do meu computador, que, aliás, não tem nada em comum com a biblioteca.
Agora o homem de óculos saiu com um papel pequeno na mão, ele deve ter encontrado algo que salve o mundo ou que nos deixe aqui, no mesmo lugar. 


domingo, 3 de abril de 2011

A namorada dos textos



Estou brincando no Paint, isto é arte?
Os textos não estão sozinhos.

sábado, 2 de abril de 2011

Outra vez




Eu quero mais é derreter, solidificar outra vez. Derreter e...
Eu quero entrelaçar em sua saia e não sair mais, ao menos que você me coloque pra fora de suas flores.
Eu quero sentir tudo outra vez.
Seu olhar é tão volátil. 
É impossível saber. 

Suas pernas me dizem muito, você gosta de andar por aí, assim como eu. 
E se a gente tomar um sorvete. Podemos também deitar na praça e olhar o azul sem fim.
Ou talvez nos olhar.
Eu quero apenas caminhar com você por La Plata.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Na garupa

Atravessei a cidade na garupa de uma bicicleta. 
Depois de quase dez quadras comecei a sentir dores na bunda e nas pernas.
Era noite quando saímos de casa. Os carros ainda estava circulando. As pessoas caminhavam de maneira acelerada depois de mais um dia de trabalho. 
Passamos pela catedral e logo em seguida adentramos a praça Moreno. 
As crianças brincavam de esconder, e como de costume, algum adulto seguia seus passos, demonstrando  proteção.
Uma criança passando perto de outras crianças. Há quanto tempo não pegava uma carona tão infantil?. 
Saímos de uma reunião e conversávamos sobre projetos de vida. Por fim, estávamos refletindo sobre nossas palavras e pensando se havia tanta firmeza em nossas vozes. Eu não quero ficar cambaleando, acreditei e acredito na nossa primeira prosa cotidiana. Creio em nossos sonhos diários.
Meus pés arrastavam no chão. E fui assim até a praça Rocha - com a coluna meio curvada e as mãos agarradas numa pequena parte do banco. 
Agradeci a carona. E ainda ficamos no ponto de ônibus conversando. 
O ônibus não passou. Peguei um táxi. 

domingo, 20 de março de 2011

DOMINGO = SAUDADE



Minha saudade se acalma ouvindo nossas músicas, aquelas que ouvimos todos os dias aí nessa terra iluminada
por nós mesmos. 
Eu sinto falta das nossas expressões, do nosso modo rasgado de dizer as coisas.
E não há língua mais bonita que a nossa, não há.
E não há língua mais dura, porque as dificuldades também se encontram nas palavras. 
Quero lembrar todos os dias desse nosso Brasil que sofre, mas que não perde o passo.
E tem uma palavra que é especial, SAUDADE.
Por que essa sim é uma palavra naturalmente brasileira. E se não for, quero que seja.

"Te echo de menos" BRASIL, ou melhor, SAUDADE Brasil. A segunda é melhor, porque minha boca
enche de orgulho! 

Para mim, o domingo continua vazio. Posso estar em qualquer país, domingo é dia de drama!

sexta-feira, 18 de março de 2011

Uma lasquinha do meu livro


Queria me rasgar até não poder mais. Estou imóvel, não consigo fazer nada. O banheiro está longe, tudo está longe de mim. Não há pessoas nem baratas. Não escuto o barulho da vida. Tenho um caderno e uma caneta. Eu gosto de escrever. Tenho ciúmes das palavras, assim como aquele ciúme que sentia por... tenho cuidado com elas. Não vou escrever qualquer coisa. Que confusão. Não sei que dia cheguei, por que estou aqui. Que diabos. As janelas não querem abrir, elas não se movimentam. Que sufoco.
Lembro de uma festa, estavam todos fantasiados. Eu bebia e fumava incansavelmente. Nada me fazia parar. Aquelas máscaras rodavam. As pessoas estavam enlouquecidas ou era eu? Lembro que estava no banheiro com alguém. Não sei se era uma mulher, não recordo. Mas num estalo a porta se abriu, me vi no espelho. Depois sai dizendo que não havia feito nada, que estava apenas lá. Mas não adiantou, eu lembro de uma palavra. Verdade, verdade, verdade. Fiz alguma coisa, mas não lembro. E se eu descobrir o que aconteceu, posso entender por que estou aqui. E se não for isso... estou agoniada. Mas posso contar a minha história desde o começo. Talvez chegue nesse ponto e descubra por que estou aqui.

Nasci num desses hospitais. Minha mãe dizia que eu era feia pra burro. Tinha orelhas muito grandes, um nariz vermelho. E tenho certeza que cheguei a este mundo gripada e com febre. Minha boca era pequena, ela tinha um biquinho na parte superior um pouco maior que das outras crianças do hospital. A única coisa que salvava eram meus olhos verdes. Mas ninguém conseguia ve-los, porque eram pequeninos demais.
É muito dificil escrever. Não tenho ninguém para compartilhar e muito menos perguntar algo sobre minha infância. Será que escolhi estar aqui? Meu deus, estou aqui por que quero? Não seria capaz de isolar-me dessa maneira. Eu devo ter feito alguma coisa grave. Eu matei alguém. Agora esta explicado.
Estava no banheiro com uma mulher, matei essa mulher e sai dizendo que não tinha feito nada. Então é por isso que recordo da palavra verdade. Estavam todos me dizendo que a verdade seria o melhor caminho, que a mentira era um lugar sujo de se hospedar. Foi isso? Eu quero sair daqui, não consigo abrir as portas. Já sei, vou gritar, tenho que fazer barulho. Não adianta. Ninguém me escuta. Vou escrever uma carta e coloca-la embaixo da porta, alguem vai passar e ler. Perfeito.

Olá.
Não posso me identificar, porque não lembro o meu nome e muito menos minha fisionomia. Faz muito tempo que não olho no espelho. Alguém me colocou aqui, eu acho.
Não tenho um vocabúlario muito rico, então essa carta será bem simples. Por que estou falando isso.
Que confusão, é apenas uma carta de socorro, ok.
Vamos lá.
Não sei quantos dias estou aqui dentro. Acordei nesta cama e tudo está fechado. Também não sei se estou sonhando ou se essa é a minha realidade. Preciso que alguma alma de Deus me tire daqui.
Se você pegar essa carta avise alguém, chame qualquer pessoa.
Obrigada