quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Meias palavras

Uma ciranda se fez em meio a um desconcertante chão desnivelado. Não era um círculo qualquer. Num domingo frio e calmo, o samba comeu solto num palco montado em frente ao Museu da Inconfidência - Ouro Preto. As músicas pareciam agradar um bocado de gente, algumas sambavam, outras remexiam os pés discretamente, eu estava no meio termo. Aos poucos, a banda "Vira Saia" ganhou a confiança do público. O vocalista (Tuca) tocou uma música que falava sobre ciranda. Então, ele pediu para montarmos uma roda. Imagino que tinha cerca de  100 pessoas assistindo o show. Num piscar de olhos, lá estava a grande ciranda, orgânica e entrelaçada de cores fortes.



Não participei do círculo, mas senti uma energia um tanto divina vinda do meio da roda. Eu e Lorena falávamos que lá dentro tinham escravos pulando e tocando seus instrumentos, deviam estar comemorando a "liberdade". Havia espíritos de todos os tipos. Nós estávamos circunscrevendo o baile daqueles que não podemos ver, apenas sentir. 


Engraçado, não consigo continuar esse texto. As vezes as palavras não conseguem transmitir tais momentos, e, esse, é um deles. 

Só mais uma coisa, isso só acontece, dessa forma, em Ouro Preto.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Uma história real - A menina que sempre foi gente grande

Como prometido, eis uma parte da história de Regina Correa, moradora do Morro do Santana. Em outubro vocês vão poder conferir toda a história na revista VIDE-VERSO - uma produção do curso de Jornalismo.


Estou de volta, no feriado prometi ficar um tempo longe dessa máquina preta. Mas, o Tal Cotidiano não pode parar! 



 “Eu era danada pra colar”, ela diz. Os olhos pequenos e castanhos se fecham, o desenho das rugas aparece no seu rosto e ela solta um sorriso comprido. Regina Correa não era muito boa em matemática, as contas eram rabiscadas na carteira que ela mesma carregava. A escola era na casa de sua professora em São Luís do Maranhão, cidade onde nasceu. Estudou até a quarta série, porque a escola não tinha uma estrutura adequada. O pai era poteiro (fazia filtros de barro), a mãe, dona-de-casa. A casa muito simples era feita de palha, raramente chovia, mas quando a chuva caía, a água encobria até os joelhos.
Com nove anos Regina saiu de casa, a mãe Isaura estava com 38 anos; quase a idade de Regina hoje, 37. De São Luís do Maranhão foi para o Rio de Janeiro estudar e trabalhar, depois partiu para Belo Horizonte. Sua profissão, com nove anos de idade, babá. Desde pequena a palavra responsabilidade andava com a menina, que queria ser livre e ganhar seu próprio dinheiro. A cicatriz de aproximadamente quatro centímetros perto da sobrancelha esquerda é um reflexo da busca por asas grandes.
Quando já morava em Ouro Preto (MG), ela queria a todo custo trabalhar, porém sua “avó postiça” dizia que ela tinha tudo. Regina não aceitou, logo arrumou um emprego em casa de família, e quando estava lavando a escada, caiu. A marca nunca mais saiu do rosto. Com voz de protesto ela conta “eu sujava a casa onde morava para as empregadas arrumarem e minha “avó” achar que elas não estavam limpando direito. Eu queria trabalhar no lugar delas e ganhar meu dinheiro”.
Faz 22 anos que Regina não vê a mãe; a caneta e o papel são o único meio de comunicação. As cartas e as fotos ajudam a lembrar da família. Hoje, sua mãe está com 62 anos. Sentada no quarto pequeno, ela encosta-se à cabeceira da cama de um dos cinco filhos e mostra a fotografia da mãe que parece ter 40 anos de tão conservada. Também apresentei para ela as fotos do meu pai e de minha irmã. Nas cartas enviadas pela mãe soube que teve dois filhos gêmeos, mas Regina não conhece nenhum e não lembra muito bem dos traços dos outros irmãos que ficaram em São Luís do Maranhão.
Regina não para de falar. Às vezes, fala olhando para o quintal que está de frente para a cozinha; mas na maior parte do tempo, olha fixamente pra mim.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

No palco

Abrir a boca, relaxar, rodar, sentir a voz, fazer barulho, mexer o diafragma, esse é o segredo para colocar a voz no seu devido lugar. Estou fazendo uma oficina de rádio no SESI que começou quarta-feira! 
O palco foi todo nosso. E claro que antes de dar início as práticas, não pude me conter, fiz logo uma graça no palco - uma passo de balé. Depois, agradeci a platéia vazia.
É tão prazeroso sentir o próprio corpo, reconhecer seus limites e extravagâncias. Acredito que quando sentimos cada parte, inclusive a voz, partimos para um outro universo, aquele que só você entende. 
Primeiro, fizemos vários exercícios com a voz, alteramos a intensidade, o ritmo, o timbre. Ouvia-se vozes um tanto agudas, ora graves ou finas e grossas, como costumamos dizer. No início, fiquei um pouco nervosa, mas depois meu corpo estava completamente relaxado. 
No final, fizemos um círculo marcando o ritmo com os pés. O som começou a se desenhar em cada pisada no chão, até os professores entraram com suas pernas experientes. Entre passadas leves e fortes, cantávamos como crianças livres. Cada marca de sapato registrava uma identidade diversa que se misturava com outras, criando um compasso harmonioso de gente. Batemos palmas, agradecemos o mestre. 
Depois que terminou, passei na secretária do SESI e perguntei sobre a dança contemporânea. Me deu sede de palco!






terça-feira, 31 de agosto de 2010

Simples almoço

Cardápio do dia: blanquette de veau, de sobremesa - creme brûlée. Hoje acordei cedo, marquei um almoço em Ouro Preto. Imagine um restaurante repleto de quadros sobre o Renascimento e outras artes, cadeiras envernizadas de um marrom velho, um jazz refinado de Miles Davis, três relógios dourados daqueles que os números saltam o vidro, azeite da Grécia, taças verdes, vinhos e uma recepção de dar gosto. Os pratos brancos eram enormes, no entanto, pouca comida como manda os bons costumes. 

Camila Emílio ainda não tinha chegado, mas Beatriz (jornalista), Grasi (atriz) e eu, já estávamos lá esperando a arte-educadora aparecer. Próximo ao restaurante, via-se o departamento de Artes Cênicas da Universidade Federal de Ouro Preto, porém, não tinham muitos estudantes desse curso almoçando. Acho que eram engenheiros, biólogos, farmacêuticos ou coisa do tipo. Pelo menos foi a impressão que todas nós tivemos. Aguardamos mais um pouco e Camila chegou. Perguntei para ela: 
_ engraçado, esse restaurante sempre fica lotado? 
E ela respondeu num tom irônico: 
_ agora deu pra ficar assim, cheio de gente.

Achei estranho, mas não quis prolongar a conversa. Estávamos morrendo de fome, e nessas horas, não é bom ficar questionando sobre, até porque algumas pessoas quando sentem muita fome ficam estressadas. 

Camila sentou e logo pedimos o cardápio. Escolhi um vinho do Porto, Grasi tomou um suco e Beatriz como de costume, pediu um chá gelado de limão. Na mesa, falávamos sobre teóricos das artes, posteriormente, sobre a convergência das mídias (tema atual nos estudos do Jornalismo).  Neste momento, Beatriz tagarelava e tirava fotos para registrar aquele momento.

Parecia que estávamos em um mirante, da janela do restaurante se enxergava as montanhas lá embaixo e várias casas irregularmente dispostas.

Senti algo estranho, como um colapso de memória. Parecia não pertencer aquele lugar. O vinho já não era mais vinho, senti um gosto de coca-cola. O blanquette de veau se transformou em: arroz, feijão, batata e, novamente, feijão (só que branco). O suco da Grasi era suco, mas daqueles vagabundos e o chá da Beatriz nunca existiu. Não somos jornalistas, atrizes ou arte-educadoras, apenas estudantes. O restaurante não era o mesmo das primeiras linhas desse texto, mas sim, o RU (Restaurante Universitário) da UFOP. A fila rodava quarteirões.

Depois do almoço fomos para o mirante. O ar carregava cheiros, sorrisos, lábios. Aquele ar que compartilha vida.

Esse foi meu dia, um simples almoço!



  

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Para além do que é mostrado




O final de semana se resumiu em duas palavras - Ouro Preto. Uma cidade cercada por montanhas e, junto a elas, histórias que permanecem de geração em geração. Costumo dizer que Dom João VI e seus filhos ainda caminham por entre os becos escuros com seus cavalos brancos, e mais, que as pombas nunca morreram, são as mesmas vindas de Portugal. Quando ando pelas ruas, me sinto um flauner - um "vagabundo" expressão usada por João do Rio em, A alma encantadora das ruas) - sem lugar. É engraçado olhar para as casas, museus e igrejas, pareço não pertencer a nada. Uma confusão de séculos, revoluções e sofrimentos.

O agora de Ouro Preto se mistura a lan-houses, bares, cafés, restaurantes pomposos, estrangeiros, jóias e o outro lado da moeda, esquecido pelos reis democráticos, nem sequer é lembrado.
No ano de 2008, quando iniciei a faculdade de Jornalismo, fui ao Morro do Santana fazer um trabalho sobre o Festival de Jazz. Entrevistamos mais de quinze pessoas, poucas delas sabiam sobre o evento, que nesse mesmo ano teve apresentações gratuitas em lugares bastante conhecidos. Nos questionamos: para quem é o festival?

O fato é que, estamos naquela de "alta cultura" e "baixa cultura", ou seja, uma fragmentação banal da cultura em "elitista" e de "massa". 

Não quero tornar esse blog um lugar acadêmico, por isso paro por aqui com esses termos!!

Na verdade fui ingênua em acreditar no vídeo que o festival exibia todos os dias durante o evento. Não me lembro de uma frase específica dos entrevistados, mas recordo que era um discursinho do tipo - o festival é para todos, para a comunidade ouropretana.


No final, penso que o "Tudo é Jazz" de 2008 me trouxe tanta GENTE. Uma delas se chama Regina Correa, moradora do Morro do Santana. A história de nós duas ainda está em construção, acredito que sempre ficará assim... 


O próximo texto vai ser sobre ela "A menina que sempre foi gente grande"!







sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Esse blog vai ser diferente


Ontem o dia foi célere. Na verdade, estou numa seqüência de tarefas, projetos e reuniões. O trabalho me deixa num estado, digamos que de estabilidade, não no sentido "econômico"! Essa ocupação cotidiana faz com que eu esqueça, um pouco, de confusões interiores. De qualquer modo, quando volto pra casa a noite, vem a tona aquele desequilíbrio, uma dor profunda, daquelas que corroe os ossos. Já dizia Virgínia Woolf - "o acordar é o que nos mata".



 Depois da aula, resolvi alugar um filme, una película tranquila, intitulado - Julie e Julia, para não sair de casa. Têm dias que o meu lar parece um albergue, daqueles poéticos com cores vivas, toalhas floridas, quadros e músicas. Quando estava no Rio de Janeiro, no final de 2009, fiquei num albergue bastante lúdico, no bairro Catete (não lembro o nome), parecido com essa casa em que me encontro. Volvendo ao filme.

 A história é sobre duas mulheres que vivem tempos distintos. Uma delas chama-se Julia - cozinheira famosa que vivia em Paris com seu marido, no ano de 1949. A outra, Julie - personagem forte e sagaz, que quer ser Julia, a "celebridade da gastronomia". No entanto, Julie, mulher simples, divide seu trabalho entre ser secretária em uma empresa e cozinheira nas horas vagas. Ela cria um blog para contar seus testes na cozinha e também o seu cotidiano. De início, o blog não é seguido por ninguém, ao não ser pela sua mãe. Posteriormente, as páginas lotam de comentários dos internautas. Enfim, as personagens vão se entrelaçando, cada uma em seus respectivos contextos temporais e sociais. Ora as cenas se fecham na vida de Julie, ora na de Julia. O gosto pela comida, o cheiro que parece invadir a sala, paladares aguçados, e principalmente, o trabalho, são retratados no filme.

 Não vou contar o final, até porque dormi um pouco antes de aparecer o the end

Mas, o exemplo citado cabe bem, pois ontem senti a mesma sensação (imagino) que Virgínia, quando escreveu a frase que citei no início desse texto: "é o acordar que nos mata". Alguns meses atrás, essa frase andava comigo. Sentia dificuldades para escovar o dente, tomar banho, café da manhã, ou seja, a rotina maldita. Porém, o filme me instigou de tal maneira, que acordei com as seguintes palavras na testa, eis aqui as danadas: trabalho, vida, amor, "o acordar é o que nos faz viver". Foi incrível, a dor de acordar foi embora, como nuvens apressadas. 

No fim, me perguntei, por que doe tanto? Que medo é esse de viver e enxergar o globo lá fora? Por que não viver como Julia e Julie, amando suas funções cotidianas, tendo o prazer de levantar e olhar a vida de outra maneira?




quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Eu encontrei aquela beleza exótica
mistura fina de menina e mulher

seios delicados
sorriso aberto para o mundo

dentro do quadrado eu olhei...

na parede, um quadro azul, alguns instrumentos tribais
na janela, pinturas que não sei de quem são
fotos desorganizadas
uma cama de madeira fraca

no chão, papéis de todos os tipos, sapatos, malas
na estante, livros acadêmicos

novamente no chão frio, um colchão...
há quem diga que dormir no chão não é bom
mas eu gosto...

sábado, 24 de julho de 2010

(co)rroendo

tem uma coisa aqui dentro da barriga,

parece um rato... ele passa a unha devagar

d



va

g

ar

pode ser que esse bicho seja um amor daqueles ferozes, ou não...

a pele apresenta minha nova barriga, digamos que chegou a hora da transição.

 mesmo tendo uma rua plana, o tal desequílibrio me assombra.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

As formigas começaram a sair de suas casas para ver o sol.
Com pernas de agulhas, elas foram caminhando devagar.
A estação marrom estava pronta para receber as famílias que, aos poucos, descarregavam suas
bagagens adocicadas. Algumas tinham mais, outras menos. Um desequílibrio sem fim.
O trem damasco se encontrava na plataforma B.
Aos poucos a escada rolante, os banheiros e as filas ficaram entupidos.
Lá de cima se enxergava o tabuleiro de damas do tio Zeca. As formigas, o preto, os doces, o branco.
A montanha alta era o meu lugar.
Tão superficial e vazio.
Tão sem ação.
Depois de olhar aquelas loucas, resolvi descer.
Foi incrível.
Algumas não tinham visão. Mas, as formigas que conseguiam ver auxiliavam as outras.
E assim, decidi ficar para ver os milhares de  olhos, mesmo que estes não carregavam o poder da divindade funcional.
Eu vi todo aquele cartesianismo morrer.
Eu vi aquela aura mêcanica ir embora.

terça-feira, 13 de julho de 2010

terça-feira, 22 de junho de 2010

castanha.

Aquele cabelo sem jeito

e os dentes, nossa!

toquei nos lábios e só.







Depois desse espaço preto
nada aconteceu

encontrei de novo
encontrei mais uma vez

mas ela é danada
ela sabe que é.


Por que você não passa daquela porta?

momentos conturbados, eu sei.

e como sei
Quando
uma
chuva
de
verão cair

Quando o arco-íris aparecer

Quando o
                navio
                         deslizar sobre as águas brandas do pacífico

Quando
as
luzes
da
cidade
forem
coloridas

Quando os soldados jogarem suas armas no chão

Quando os sapatos dos homens estiverem ilustrados com clareza

Quando o sol nascer pra você

quando
quando
quando
quando mais quandos, ainda assim não seremos...

segunda-feira, 10 de maio de 2010

...






Ela me deitou
Me fez suar

Ela me pegou
Me chamou de fraca

Ela estava com prazer
Meu corpo foi seu por vários dias

Fui um lixo
Fiquei infectada

Gozei
Até saiu pelo nariz
Pela garganta

Ela me ensinou a tomar água depois de gemer na cama
Ela falou pra não fumar...

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Tirei

Ficou alguns resquícios


Tirei, estou fora

Meu olhar é externo

Aquele cheiro de suor, aquela dança sensual

Nudez

Remédios que ficam só a olhar

Foi embora para ser outra coisa

Tirei

Saiu de mim

Não é pra mim

domingo, 24 de janeiro de 2010

Cercadinho






Você olha para cima?
Seu olhar é uma régua?

Aposto que existe vários prédios que você nunca sequer notou. Surpreso você diz: "nossa, nunca vi esse daí"
E você passa ali todos os dias... 

VocÊ olha para o chão?
Está cheio de "animais" se arrastando, um sem as duas patas sentado em um skate, outros com a barriga grande de tanto não comer... alguns até babam e imploram migalhas.

Você sabe quem são os animais?
O chão é seu habitat...

A régua te persegue... dê um salto... o cercadinho é menor que você...



sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

búh


Tanto alvoroço
Cara feia
Chuva escorrendo pelas ondulações dos corpos
Um chá de Barata Ribeiro
As bolas do céu parecem não querer parar de cessar
O que se ouve são conversas de botequim
pessoas correndo
E me pergunto, estamos de férias?
SIM
SIM
E aquelas outras?
NÃO, NÃO SEI
O peso da mochila marca a pele quase morena
Até aqui somos seres sem lugar
Perdidos
É só olhar para o lado
Cara feia - goiaba estragada
Agora
Instalados
Abrem-se os dentes
Enquanto isso...
O motoqueiro desse do veículo habitual
E diz: "fui do oiapoque ao chuí"
Ele não está de férias
E não deve ter ar condicionado em casa
Enquanto isso...
EHHHH "trabalhador brasileiro"
E nós, mais uma vez, fechamos os dentes
Ainda estamos de VACATION
E aqueles outros e outras?

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

A rua que tem zoom!


Preta e branca, colorida, zoom, zoom, zoom, zoom – Google Earth. Antes, num tempo em que a máquina fotográfica era um trambolho, coberta de panos pretos, o homem se escondia no labirinto de ângulos, BUM! Escutava um estrondo esfumaçado – a foto. Com o passar dos séculos, a câmera só foi diminuindo, o barulho nem se escutava, podia ver no interior da casa a dona Gessy com seu avental vermelho fazendo pão de queijo, ou fotografar o olho azul com rabiscos cinza da Cristina (filha do Gasparino) sentada na calçada. Depois, num toque sutil, com o dedo indicador encostado no mouse, a cidade chamada Serra do Salitre (MG), e com um leve girar, a rua Capitão Luís Manoel. E adianta tanta parafernália inventada com o passar dos anos? Onde está a ultrapassada máquina escandalosa? Por onde anda as máquinas minúsculas? Dentro de uma gaveta cheia de poeira, jogadas no lixo e esmagadas pelo caminhão da Prefeitura, ou entregues aos seus filhos. A rua, que fora de terra, de cascalho, de asfalto, ainda está lá. Tranqüila, tomada de uma simplicidade tamanha, viva, acolhedora de passos sofridos dos moradores. A rua tem cheiro de mãe, de criança, de velhinho, de escola, de açougue, de praça. Um ar que exala comida de vó – arroz quentinho, feijão fresco, ovo frito e de sobremesa – bolo de fubá. De dia passam alguns carros, carroças guiadas por cavalos cansados, a caminhonete do homem que vende pamonha. A noite, se ouve o barulho das árvores, os vizinhos conversando na janela, ás vezes um jantar para comemorar a festa da cidade. A rua Capitão Luís Manoel tem nome de autoridade, mas mandona ela não é. De tanta mansidão parece que nada evoluí, nada tem zoom. Para provar o quanto essa rua está recheada de significados e transformações, a frase de Milton Santos cai bem - “Cada lugar, é à sua maneira, o mundo”.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Vida ausente



A vida em algumas situações parece parar no chão, como chicletes jogados pelas crianças saindo da escola, ou como pedras no meio do caminho tão faladas por Drummond.
Em certos momentos a fluidez do cotidiano que tanto nos incomoda não parece estar mais lá. O barulho dos vendedores de frutas passando pela rua , o homem do caminhão apertando a buzina no ritmo acelerado de uma música, gente correndo atrás do ônibus, o som da luz vermelha do carro da polícia.

Toda fúria e celeridade da vida se acomodoram no sofá da sala. Ao lado uma mesinha verde de madeira, no centro um baralho e o chá gelado dentro de uma caneca preta de anos a fio. O pijama no corpo o dia todo representa sinais de poucas passagens pelo banheiro seco. A casa tão solitária se esconde no meio de tantas outras, a cor vermelha do muro já não chama atenção dos vizinhos, que meses atrás, elogiavam o bom gosto da pintura. O jardim tão bem cuidado, agora se enche de folhas secas caídas da árvore em frente ao portão.


E a vida que ali no sofá de couro rasgado pelo tempo era tão enraizada, recebe o sol que entra todos os dias da janela colorida, as vezes tímido, outras estonteantes.
Na mesinha verde de madeira a flor que não tinha forças se movimenta todo amanhecer do dia, remexendo suas folhas verdes no balanço da música tocada pela vitrola marrom.
O olhar do velhinho de cabelos brancos abraça a vida. E a vida que ficou uns tempos ausente volta a abraçar o velhinho.