domingo, 3 de abril de 2011
sábado, 2 de abril de 2011
Outra vez
Eu quero mais é derreter, solidificar outra vez. Derreter e...
Eu quero entrelaçar em sua saia e não sair mais, ao menos que você me coloque pra fora de suas flores.
Eu quero sentir tudo outra vez.
Seu olhar é tão volátil.
É impossível saber.
Suas pernas me dizem muito, você gosta de andar por aí, assim como eu.
E se a gente tomar um sorvete. Podemos também deitar na praça e olhar o azul sem fim.
Ou talvez nos olhar.
Eu quero apenas caminhar com você por La Plata.
quarta-feira, 23 de março de 2011
Na garupa
Atravessei a cidade na garupa de uma bicicleta.
Depois de quase dez quadras comecei a sentir dores na bunda e nas pernas.
Era noite quando saímos de casa. Os carros ainda estava circulando. As pessoas caminhavam de maneira acelerada depois de mais um dia de trabalho.
Passamos pela catedral e logo em seguida adentramos a praça Moreno.
As crianças brincavam de esconder, e como de costume, algum adulto seguia seus passos, demonstrando proteção.
Uma criança passando perto de outras crianças. Há quanto tempo não pegava uma carona tão infantil?.
Saímos de uma reunião e conversávamos sobre projetos de vida. Por fim, estávamos refletindo sobre nossas palavras e pensando se havia tanta firmeza em nossas vozes. Eu não quero ficar cambaleando, acreditei e acredito na nossa primeira prosa cotidiana. Creio em nossos sonhos diários.
Meus pés arrastavam no chão. E fui assim até a praça Rocha - com a coluna meio curvada e as mãos agarradas numa pequena parte do banco.
Agradeci a carona. E ainda ficamos no ponto de ônibus conversando.
O ônibus não passou. Peguei um táxi.
Depois de quase dez quadras comecei a sentir dores na bunda e nas pernas.
Era noite quando saímos de casa. Os carros ainda estava circulando. As pessoas caminhavam de maneira acelerada depois de mais um dia de trabalho.
Passamos pela catedral e logo em seguida adentramos a praça Moreno.
As crianças brincavam de esconder, e como de costume, algum adulto seguia seus passos, demonstrando proteção.
Uma criança passando perto de outras crianças. Há quanto tempo não pegava uma carona tão infantil?.
Saímos de uma reunião e conversávamos sobre projetos de vida. Por fim, estávamos refletindo sobre nossas palavras e pensando se havia tanta firmeza em nossas vozes. Eu não quero ficar cambaleando, acreditei e acredito na nossa primeira prosa cotidiana. Creio em nossos sonhos diários.
Meus pés arrastavam no chão. E fui assim até a praça Rocha - com a coluna meio curvada e as mãos agarradas numa pequena parte do banco.
Agradeci a carona. E ainda ficamos no ponto de ônibus conversando.
O ônibus não passou. Peguei um táxi.
domingo, 20 de março de 2011
DOMINGO = SAUDADE
Minha saudade se acalma ouvindo nossas músicas, aquelas que ouvimos todos os dias aí nessa terra iluminada
por nós mesmos.
Eu sinto falta das nossas expressões, do nosso modo rasgado de dizer as coisas.
E não há língua mais bonita que a nossa, não há.
E não há língua mais dura, porque as dificuldades também se encontram nas palavras.
Quero lembrar todos os dias desse nosso Brasil que sofre, mas que não perde o passo.
E tem uma palavra que é especial, SAUDADE.
Por que essa sim é uma palavra naturalmente brasileira. E se não for, quero que seja.
"Te echo de menos" BRASIL, ou melhor, SAUDADE Brasil. A segunda é melhor, porque minha boca
enche de orgulho!
Para mim, o domingo continua vazio. Posso estar em qualquer país, domingo é dia de drama!
sexta-feira, 18 de março de 2011
Uma lasquinha do meu livro
Queria me rasgar
até não poder mais. Estou imóvel, não
consigo fazer nada. O banheiro está longe, tudo está
longe de mim. Não há pessoas nem baratas. Não
escuto o barulho da vida. Tenho um caderno e uma caneta. Eu gosto de
escrever. Tenho ciúmes das palavras, assim como aquele ciúme
que sentia por... tenho cuidado com elas. Não vou escrever
qualquer coisa. Que confusão. Não sei que dia cheguei,
por que estou aqui. Que diabos. As janelas não querem abrir,
elas não se movimentam. Que sufoco.
Lembro de uma
festa, estavam todos fantasiados. Eu bebia e fumava incansavelmente.
Nada me fazia parar. Aquelas máscaras rodavam. As pessoas
estavam enlouquecidas ou era eu? Lembro que estava no banheiro com
alguém. Não sei se era uma mulher, não recordo.
Mas num estalo a porta se abriu, me vi no espelho. Depois sai dizendo
que não havia feito nada, que estava apenas lá. Mas não
adiantou, eu lembro de uma palavra. Verdade, verdade, verdade. Fiz
alguma coisa, mas não lembro. E se eu descobrir o que
aconteceu, posso entender por que estou aqui. E se não for
isso... estou agoniada. Mas posso contar a minha história
desde o começo. Talvez chegue nesse ponto e descubra por que
estou aqui.
Nasci num desses
hospitais. Minha mãe dizia que eu era feia pra burro. Tinha
orelhas muito grandes, um nariz vermelho. E tenho certeza que cheguei
a este mundo gripada e com febre. Minha boca era pequena, ela tinha
um biquinho na parte superior um pouco maior que das outras crianças
do hospital. A única coisa que salvava eram meus olhos verdes.
Mas ninguém conseguia ve-los, porque eram pequeninos demais.
É muito
dificil escrever. Não tenho ninguém para compartilhar e
muito menos perguntar algo sobre minha infância. Será
que escolhi estar aqui? Meu deus, estou aqui por que quero? Não
seria capaz de isolar-me dessa maneira. Eu devo ter feito alguma
coisa grave. Eu matei alguém. Agora esta explicado.
Estava no
banheiro com uma mulher, matei essa mulher e sai dizendo que não
tinha feito nada. Então é por isso que recordo da
palavra verdade. Estavam todos me dizendo que a verdade seria o
melhor caminho, que a mentira era um lugar sujo de se hospedar. Foi
isso? Eu quero sair daqui, não consigo abrir as portas. Já
sei, vou gritar, tenho que fazer barulho. Não adianta. Ninguém
me escuta. Vou escrever uma carta e coloca-la embaixo da porta,
alguem vai passar e ler. Perfeito.
Olá.
Não posso
me identificar, porque não lembro o meu nome e muito menos
minha fisionomia. Faz muito tempo que não olho no espelho.
Alguém me colocou aqui, eu acho.
Não tenho
um vocabúlario muito rico, então essa carta será
bem simples. Por que estou falando isso.
Que confusão,
é apenas uma carta de socorro, ok.
Vamos lá.
Não sei
quantos dias estou aqui dentro. Acordei nesta cama e tudo está
fechado. Também não sei se estou sonhando ou se essa é
a minha realidade. Preciso que alguma alma de Deus me tire daqui.
Se você
pegar essa carta avise alguém, chame qualquer pessoa.
Obrigada
terça-feira, 15 de março de 2011
Sonhei com o amor
Eu sonhei com o amor.
Ele estava na minha frente.
Saímos de casa pela madrugada fria e caminhamos até o bosque.
Não senti dores fortes nas pernas porque passamos por ruas planas.
Sentamos num banquinho de madeira e acendemos duas velas, uma para
mim e outra para ele. Logo em seguida fumamos cigarros coloridos.
Falamos da vida, do ar que cheirava vida, da terra úmida que
pulsava vida.
Falamos da morte, queríamos morrer juntos. Eu e o amor.
Pedimos água e um vinho chileno. E para comer, pipoca.
Falamos também do vazio, de estar em outro lugar e sentir saudade de outro lugar.
Falamos de nossas roupas e como o frio nos deixa elegantes, ao mesmo tempo misteriosos.
Falamos de nossos pais, de como somos distantes de nossas famílias. E não sabemos quando vamos nos dar conta... não sabemos se vamos acordar um dia e sentir aquele estalo. Mas todos vão estar mortos por dentro. Ninguém vai querer o nosso despertar.
Falamos de sexo e das vezes que chorava por somente tocar.
E como esse tocar era significativo. Não era somente fazer, mas havia uma invasão que não suportava.
E o amor também me disse que essa sensação lhe invadia.
Falamos do nada, falamos nada com nada.
Falamos das formigas que passavam na rolha caída no chão.
Vixi, falamos de tudo que não podemos enxergar. Mas se sabemos, então podemos enxergar.
Terminamos o vinho e fomos embora. Eu e o amor.
Disse para ele: "para mim essa foi a verdadeira noite de amor"
Obrigada.
sábado, 12 de março de 2011
Todo cambia
Minha voz está diferente.
Meu corpo e minha alma também.
Tenho saudade da minha língua, aquela que escutei quando sai da barriga de minha mãe.
Quando falo espanhol pareço ser outra, e sou, porque se não for outra, não faz sentindo estar aqui.
Me sinto uma criança aprendendo a falar e se comunicar com outras.
Nos primeiros dias estava perdida, como um navio em alto mar sem direção, sem referências. Somente meu coração falava.
Depois, a cada segundo me sentia melhor e mais preparada para falar com alguém.
Não é fácil, tem que ter força.
Mais do que nunca, agora sei que saber uma língua, seja ela qual for, nos transmite segurança.
Agora entendi a música "Língua" cantada por Gal Gosta - "a língua é minha pátria e eu não tenho pátria".
Minhas mudanças são sempre doloridas, mas eu sei que elas ficam tranquilas depois de um tempo.
Estou feliz , em poucos dias conheci pessoas maravilhosas.
Meu coração não se engana.
Aqui tem gente do mundo inteiro. Todos os dias brincamos uns com os outros.
E claro Maradona e Péle são os tops da lista. Ah, Messi também.
Mas tenho lá meus argumentos. São poucos, mas valem.
Quando estava no Hostel, tinha gente da França, Portugal, Chile, Inglaterra, Colômbia, Brasil, Itália. Uma mistura louca de culturas.
E quando falo que sou brasileira, todos gostam. E dizem que querem conhecer o Brasil, o Brasil, o Brasil.
Brasil, meu Brasil brasileiro!
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
Um resumão
Cheguei em Foz do Iguaçu.
O albergue é maravilhoso.
Pra variar encontrei com duas meninas que moram em BH.
Pedi uma cerveja e escutei aquele sotaque singular.
Logo, sentei na mesa delas.
E uma delas disse: "ainda bem que vamos embora amanhã, porque se a gente
se juntar com vocês não vai prestar".
Tem uma cachorrinha aqui no Hostel que é linda.
E no quarto que estou tem duas australianas, ainda bem que uma delas
fala espanhol. Que sorte.
Amanhã vou para o Paraguay comprar minha Canon tão sonhada.
E depois que eu voltar vou para as cataratas.
Por enquanto é só.
FRASE DO DIA: NO BOTE PAPEL HIGIENICO EN EL INODORO, GRACIAS!
O albergue é maravilhoso.
Pra variar encontrei com duas meninas que moram em BH.
Pedi uma cerveja e escutei aquele sotaque singular.
Logo, sentei na mesa delas.
E uma delas disse: "ainda bem que vamos embora amanhã, porque se a gente
se juntar com vocês não vai prestar".
Tem uma cachorrinha aqui no Hostel que é linda.
E no quarto que estou tem duas australianas, ainda bem que uma delas
fala espanhol. Que sorte.
Amanhã vou para o Paraguay comprar minha Canon tão sonhada.
E depois que eu voltar vou para as cataratas.
Por enquanto é só.
FRASE DO DIA: NO BOTE PAPEL HIGIENICO EN EL INODORO, GRACIAS!
Partiu!
Senti um frio na barriga quando olhei minhas malas no corredor da casa.
Me deu vontade de vomitar. Aquele rato presente em um dos meus textos voltou. Ele até feriu meu estômago, mas agora de uma maneira saudável.
Sabe quando a gente vai fazer vestibular, apresentar um trabalho na escola,
ser entrevistado, encontrar o primeiro amor na praça, cantar uma música em
público, contar para um amigo que encontrou uma linda mulher. Pois é, viajar também provoca arrepios por dentro, porque aquele lugar que escolhemos tem o desconhecido, o lugar em que nunca passamos os pés.
Quero tanto minha liberdade, no entanto, tenho medo dela. E não encaro como
uma coisa ruim, e sim, como uma experiência.
Buscar a liberdade seja ela qual for nos trás experiência. Pra ser mais específica, a liberdade de cada um significa modos de vida, estilos de vida.
Viva a vida da forma que quiser, de maneira que te faça livre. Busque o que quiser, você tem direito, eu tenho, todos nós temos.
Queria me dedicar a esse texto, mas são tantas emoções!
Penso que as palavras, nesse caso, não dariam conta. Não vou ser
injusta com elas.
#partiu Foz do Iguaçu!
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
Um pouco de sufoco não faz mal
Meu deus, deus meu. Tem que ter força até para arrumar toda a papelada exigida pelo consulado, e olha que a Argentina está aqui no nosso nariz.
Autentica de um lado, autentica de outro. Por que vocês não me autenticam de uma vez?
Estou precisando de umas carimbadas na bunda (perdi minha identidade "ayer", já estou na trigésima via).
Bom, mas eu entendo essas burocracias. Nenhum governo iria deixar qualquer pessoa entrar em seu país...??????!
Nova esfora, aos poucos tudo vai se ajeitando.
Esses dias um colombiano me ligou. GENTE, eu não entendi nada. Uma coisa é você ver a boca da outra pessoa remexendo, outra é você só ouvir. Eu tentei conversar, mas não deu. Eu me esforcei bastante e disse pra ele:
- mas despácio, por favor.
Não adiantou.
A única coisa que fiz foi soltar uma risada, ainda bem que ele me acompanhou e deu aquela gargalhada. Por fim, o crédito dele acabou.
Resultado, nada foi decidido.
Fui direto para uma livraria, comprei um dicionário de bolso. É bem simples, sei até pedir uma carne bem passada ---> "bien hecho".
Está chegando o dia, é por pouco tempo, eu sei. Mas é muito difícil "deixar" os amigos, a família e a GALEX (minha república em Mariana) como se diz a HAPPY HOUR (minha república também).
Aprendi com a minha psicóloga e também com a vida - temos que nos despreender, nos soltar como nuvens, mesmo que seja por pouco tempo.
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
Querido diário
Olá. Chegou bem? Espero que sim.
O filme é genial. Posso analisá-lo de várias formas, daquele jeito
acadêmico de ser, mas prefiro enxergar de uma maneira particular. Não que as teorias estejam fora de mim. Parece contraditório, mas eu me entendo.
Será que depois desse filme o cisne negro nascerá num ímpeto?
Talvez seja o começo...
Lá no fundo ele quer crescer, cada parte me tomando sem sentido, de forma desigual.
Enfim...
Estou falando muito de mim.
Me conta como foi a viagem. Alguém roncou ou tentou passar a mão em suas pernas?
Esse filme me marcou, acho que pela fase que estou passando, ou melhor, a que vou viver no próximo domingo.
Nunca imaginei ir pra Foz do Iguaçu ver as cataratas, engraçado. Já pensei no Cristo Redentor, na lagoa da Pampulha, na Serra da Canastra, mas nas cataratas...
E de repente a vida me leva, a vida não, eu... os dois, né!
A vida, eu, o universo.
Meu diário latino começa hoje, dia 18 de fevereiro de 2011.
Mas ainda estou em BH.
O filme é genial. Posso analisá-lo de várias formas, daquele jeito
acadêmico de ser, mas prefiro enxergar de uma maneira particular. Não que as teorias estejam fora de mim. Parece contraditório, mas eu me entendo.
Será que depois desse filme o cisne negro nascerá num ímpeto?
Talvez seja o começo...
Lá no fundo ele quer crescer, cada parte me tomando sem sentido, de forma desigual.
Enfim...
Estou falando muito de mim.
Me conta como foi a viagem. Alguém roncou ou tentou passar a mão em suas pernas?
Esse filme me marcou, acho que pela fase que estou passando, ou melhor, a que vou viver no próximo domingo.
Nunca imaginei ir pra Foz do Iguaçu ver as cataratas, engraçado. Já pensei no Cristo Redentor, na lagoa da Pampulha, na Serra da Canastra, mas nas cataratas...
E de repente a vida me leva, a vida não, eu... os dois, né!
A vida, eu, o universo.
Meu diário latino começa hoje, dia 18 de fevereiro de 2011.
Mas ainda estou em BH.
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
"Lá tem Jesus que está de costas"
Estava no Rio de Janeiro desde o dia vinte e sete de dezembro,
fiquei muitos dias em terras “joaninas cariocas”, não é pra menos, a
cidade nos abraça e nós a abraçamos.
Para além dos mares de morros, dos corpos esculturais, da pele
bronzeada, do Cristo Redentor, dos prédios com janelas gigantes, das ruas
largas que lembram Paris, outro lado da moeda pulsa por socorro e
atenção. Essa outra história não é aquela contada pela Rede Globo, pelo
contrário, a rua não camufla nada e muito menos esconde a fome estampada nos
olhares de cada brasileiro. O cenário é triste. Sei que em qualquer outra
cidade, seja ela pequena ou grande essa miséria aparece, mas o Rio de Janeiro
tem algo diferente, talvez seja pela tamanha discrepância entre as pessoas,
seja ela qual for, financeira, social, cultural.
Alguém precisa enxergar essas pessoas que vivem a saltar em nossas mãos
quando estamos comendo um salgado ou tomando um refrigerante. Essa gente é a
gente.
Não basta comprar comida, jogar moedas dentro do chapéu e nem dar metade da
sua coca-cola. Essas pessoas precisam ser vistas mesmo que imundas, elas querem
falar o nome, contar suas histórias de vida, seus romances e tragédias. Você
faz idéia da dimensão das palavras, do quanto elas podem faze sorrir?
Não estou querendo salvar o mundo, até porque incansavelmente vou repetir
“cada lugar é a sua maneira o mundo”. O mundo é o Rio de Janeiro, a Serra do
Salitre, o Haiti ou Nova York. Nossa
luta precisa começar junto com o outro que está ao seu lado.
Dia e noite ficávamos nas ruas perambulando por entre os bairros, baladas,
praias e rodas de samba. Em Ipanema, Carol – uma amiga transcendental! - queria
comprar cigarros, pra variar eu também. Andamos umas três quadras e encontramos,
já era tarde. Numa das esquinas um dos milhões de invisíveis pediu a nossa
ajuda, ele queria comer. Enquanto a Carol comprava um lanche para ele, sentei
na sua casa – um pedaço de papelão. Fiquei sabendo em poucos minutos que sua
mãe tinha morrido a pouco tempo, que seu irmão morava em Nova Iguaçu , mas ele
nunca conseguia chegar até lá porque era raro alguém dar dinheiro e muitos
menos sentar ao seu lado. No final disse que estava em Nova Iguaçu também.
Quem sabe a gente não se encontra por lá?! Ele respondeu: quem sabe... ou
não.
Somos como eles, temos apenas realidades distintas. Mas isso não é motivo de
passar sem olhar, perguntar o nome, de iniciar um diálogo. Cada um tem o seu
tempo, eu sei que eu o meu já começou.
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
Imagina - já é Natal
De longe enxergamos aquelas bolas coloridas, parecem flutuar nas paredes, árvores e tetos. Elas avisam, está chegando o grande e singelo dia, o Natal. Os comerciantes apostam nelas. Todos os anos elas nascem mais cedo, daqui a pouco vamos colocá-las para fora em abril ou junho, quem sabe.
Tem gente que não gosta de Natal, acha cafona.
Tem gente que adora porque todos se amam, pelo menos nesse dia!
Outros nem pensam nisso.
Elas continuam lá, paradas no tempo. Só nós podemos fazê-las nascer e morrer.
Ainda bem que algumas famílias lembram-se delas, são tão delicadas. Enquanto empurramos comida abaixo, elas nos observam.
Elas se alimentam também de luzes, são suas amigas para sempre. O papai noel também faz companhia e por último, as estrelas.
A árvore aqui é verde, mas tem bola rosa, roxa, e prateada. A sua tem que cor?
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Viver no cotidiano
Estou escrevendo um livro. Não tem nome, apenas uma página. Acho que essa será a minha luta, cada um tem a sua, e a minha é escrever. Não sei se vou terminar, nem se vou parar no meio do caminho.
Ontem uma amiga disse que a arte é que escolhe a gente. Estou me sentindo escolhida por ela, a literatura.
Em fevereiro vou para Argentina, quando liguei pra minha mãe choramos. E olha que nem e tão difícil de conseguir uma mobilidade para lá. Mas lembramos da minha trajetória de escola estadual, alguns anos no cursinho para o vestibular, enfim, agora outro país.
As vezes precisamos parar um pouco e olhar pra trás. Muitas vezes pensei que era imutável.
Mas não, nós estamos nos movimentando, fazendo coisas, crescendo e vivendo.
A escritora Adélia Prado foi no Fórum das Letras desse ano e falou mais ou menos isso: o que temos em comum senão o COTIDIANO. E o que haveria de ser... Até citou o cocô do bebê, as batatas no fogo, o amor, a morte. Tudo está no cotidiano e nós também. Façamos acontecer!
Ontem uma amiga disse que a arte é que escolhe a gente. Estou me sentindo escolhida por ela, a literatura.
Em fevereiro vou para Argentina, quando liguei pra minha mãe choramos. E olha que nem e tão difícil de conseguir uma mobilidade para lá. Mas lembramos da minha trajetória de escola estadual, alguns anos no cursinho para o vestibular, enfim, agora outro país.
As vezes precisamos parar um pouco e olhar pra trás. Muitas vezes pensei que era imutável.
Mas não, nós estamos nos movimentando, fazendo coisas, crescendo e vivendo.
A escritora Adélia Prado foi no Fórum das Letras desse ano e falou mais ou menos isso: o que temos em comum senão o COTIDIANO. E o que haveria de ser... Até citou o cocô do bebê, as batatas no fogo, o amor, a morte. Tudo está no cotidiano e nós também. Façamos acontecer!
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
A festa de 15 anos
O brilho do vestido laranja, sandálias que pareciam ser de pérolas raras, brincos reluzentes ao encontro das luzes frenéticas, sapatos pretos, gravatas coloridas e uma surpresa: a drag queen.
Não foi uma festa de 15 anos qualquer, apesar de achar essa celebração um tanto piegas, esse encontro da "sociedade serralitrense" (palavras usadas pelo próprio apresentador) me fez relembrar momentos jamais esquecidos nesse lugar, onde passei toda a minha infância e adolescência. É como sentir essa vivência sendo carregada, agora, pelas águas de rios diferentes.
Na festa fiquei observando as pessoas e seus trejeitos. Por várias horas fiquei pensando que as meninas pareciam todas iguais, com vestidos similares e cabelos lisos. Senti tão diferente de todas aquelas mulheres e em pensamento critiquei essa unidade feminina. No entanto, não percebi o quanto fui preconceituosa. Por achar que eu me destoava delas, pensei que o diferente estava só em mim. E mais do que isso, esqueci da distinção que cada pessoa carrega e suas história de vida. Enfim, aquelas roupas me tomaram, tinha como verdade só o meu jeito como o certo.
As músicas fizeram até os mais velhos mexerem o quadril. Num ambiente tocava música sertaneja e no outro baladas, axé, funk e outros ritmos.
Quando a drag entrou em cena - e isso na Serra do Salitre jamais aconteceu - as reações foram diversas. Alguns reprovaram aquela figura caricata, outros até tiraram fotos e se deliciaram ao som de It´s raining man!
E no meio do meu pensamento mesquinho, percebi o quanto todas aquelas pessoas são, a sua maneira, elas próprias.
No fim, sempre é bom voltar, rever os amigos, a família e os vizinhos. Para além disso, como é importante desconstruir velhos pensamentos e partir para um novo olhar sobre as coisas e as pessoas.
terça-feira, 26 de outubro de 2010
O menino-menina
Achei um ensaio bacana que eu fiz nos arquivos da faculdade!
Quando nascemos, somos observados pelos nossos pais, médicos, tios e vizinhos. Digamos que se tem uma análise aprofundada sobre nosso corpo como um todo. E assim, as pessoas perguntam: ele/ela é saudável? O nariz é parecido com o seu? E os órgãos genitais? É claro que a última pergunta é feita diferente, pois existem várias denominações que nós mesmos criamos para definir “as coisas lá de baixo”. Posteriormente, ganhamos roupas amarelas, azuis ou rosas. Para os meninos, se os pais tiverem certeza do sexo, o azul. Já para as meninas, o rosa. E se estiver na dúvida, o amarelo. Quantas convenções e normas, tudo isso estabelecido antes mesmo de olharmos para o mundo. Vamos crescendo, e cada vez mais, fechados em nossas roupas, nomes, papéis, com os quais nos definem por inteiro, tanto exteriormente quanto interiormente. Mas será que, por exemplo, numa pequena cidade francesa alguma pessoa, criança ou adulto fugiu da heteronormatividade imposta ao longo dos anos, desde que o homem, a mulher e a maça foram descobertas? O pequeno Ludovic, um menino de sete anos, irmão de outros dois meninos e uma menina, filho de Hanna e Pierre, tem um corpo biológico anatômico e funcional masculino. No entanto, aos poucos e conscientemente, ele se sente como uma menina que tem desejos eróticos por um vizinho chamado Jerone.
Ludovic pulou o círculo das normas, ele era uma “menina” daquelas que gostava de batom, vestidos e sandálias da avó. Numa cidade do interior, onde os homens são chefes de família e mulheres dona de casa, o “menino-menina” destoava-se da comunidade em geral, dos irmãos e amigos da escola.
Diante disso, podemos nos indagar: a normatividade é quem direciona para um não seguimento da ordem e dos costumes estabelecidos? É ela quem abre as portas para uma desconstrução e diferenciação do gênero? Para Arán e Júnior:
(...) uma “verdade sobre o gênero" revela antes uma ficção reguladora. Além disso, se para que essa ficção permaneça é necessário uma repetição reiterativa, podemos pensar que a aproximação de um ideal de gênero – masculino ou feminino – nunca é de fato completa, e que os corpos nunca obedecem totalmente às normas pelas quais sua materialização é fabricada. Nesse sentido, é justamente pelo fato de a instabilidade das normas gênero estarem abertas à necessidade de repetição do mesmo que a lei reguladora pode ser reaproveitada numa repetição diferencial (ARÁN; JÚNIOR, 2007).
Percebe-se na história que Ludovic era dispare das pessoas que estavam próximas a ele. O menino reproduz seus desejos imitando o comportamento e atitude de sua mãe e de sua avó. Além disso, demonstra a vontade de se casar com Jerome, seu vizinho. Depois que os pais perceberam sua conduta “anormal”, eles o levaram numa psicóloga. Mesmo ouvindo conselhos e afirmações dos pais e irmãos, de que era um menino, ainda sim, o garoto não compreendia seu bel-prazer. A omissão dos pais em manter um diálogo, faz com que Ludovic não entenda seu conflito interior. Para ele, seu desejo era natural. E por isso, acreditava que um dia Deus iria trazer o X que lhe faltava para se tornar menina. Dessa forma, Ludo percebe a difícil relação entre sua identidade de gênero e seu sexo anatômico. Para a família e vizinhos, esse desvio era inaceitável, pois os comportamentos do menino eram atípicos e destoantes dos padrões sociais aceitos e valorizados. A crença da família de Ludovic era baseada na sexualidade humana biológica, deixando de entendê-la como uma construção social, cultural e histórica. Diante disso, os costumes heteronormativos da família eram legitimados e enraizados constantemente. O silêncio dos parentes e irmãos demonstrava o não entendimento perante o diferente. Aos poucos, o estigma dado a Ludo percorre toda a família. Com o passar do tempo, sua mãe tenta compreender os desejos do filho e se caracteriza como ele, participando de suas fantasias.
O “menino-menina” demonstra que é possível se deslocar por entre e além das convenções. Dessa forma:
Se o gênero é uma norma, não podemos deixar de lembrar o que há de frágil na sua incorporação pelas subjetividades. Há sempre uma possibilidade de deslocamento que é inerente à repetição do binarismo masculino-feminino. Não é à toa que, como afirma Butler, expressões tais como "problemas de Gênero", "gender blending", "transgêneros" e "cross-gender" já sugerem o ultrapassamento deste binarismo naturalizado (BUTLER, APUD, ARÁN;JÚNIOR, 2006, p. 60).
A história de Ludo é ficcional. O cinema nos transporta para o mesmo ambiente do “menino-menina”, fazendo com que as cenas que aparecem na tela sejam também nossa realidade, mesmo que por algumas horas.
Assim, pode-se perceber o quão frágil são todas as normas impostas, diante dos desejos que nos invadem.
Apaga/escreve/escreve/apaga
Digito uma frase e apago. Penso em algum tema ou algum dia especial e nada. Como é difícil escrever. Essa semana vai ser a mais atarefada de todo o semestre. Como já estou algum tempinho sem escrever resolvi dar o ar da graça. Fiquei alguns dias sem vomitar palavras, acho que elas seriam superficiais para esse blog. Mas depois pensei que o tal cotidiano precisa respirar um pouco. E que história é essa de definir o que cabe e o que não cabe!
Tenho ficado em casa com o Pessoa, um grande amigo. Sua pele é preta e branca. As unhas estão um pouco grandes e já vejo rabiscos vermelhos em minhas pernas. Sabe aqueles amigos que não param. Eles são chamados de pessoas hiperativas. Às vezes pergunto se ele não quer trocar de lugar comigo, mas ele me olha de um jeito, um tanto negativo. Imagino que a resposta deva ser NÃO.
Vou ficar por aqui. Após o feriado, volto a escrever. Vou para uma cidade muito especial chamada Serra do Salitre, em Minas Gerais. E aposto que vai chover textos.
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Mineiros no Chile - o espetáculo continua
Num ímpeto, a natureza responde a sua maneira o desabafo para com os seres humanos. E a vida dos 33 mineiros foi abafada pela terra da minha San José, no Chile, em cinco de agosto. O mundo inteiro e os veículos de comunicação acompanharam essa história que parecia não ter solução. Mas, quando fala-se em catástrofes, a roda coletiva não perde sua força, e deixamos para trás o individualismo que tanto prezamos por uma causa comum, a vida do outro.
O resgate dos mineiros e toda a repercussão nos jornais, rádio, TV e internet, lembrou o famoso filme "A montanha do sete abutres" (1951), de Billy Wilder, sobre a crítica ao jornalismo sensacionalista. E pergunto ao jornalismo se existe outra forma de contar essa história de forma sensível e não espetacular?
Assim como a cobertura jornalística do 11 de setembro, nos EUA, a Tsunami, na Ásia, dentre outros episódios ocorridos no mundo, o jornalismo se vê despreparado ao cobrir tais fatos, tudo porque ele é feito por seres humanos que sentem, choram, se emocionam. Diante de uma catástrofe, até mesmo o jornalismo que se diz tão distante e neutro perde sua máscara forte. Contudo, essa emoção acaba se tornando exacerbada e a representação dos fatos vira um grande espetáculo. E o que vende mais no jornalismo está regrado ao sensacional, ou seja, da vida em risco, do sangue à morte. E quem será o culpado, o público que sustenta esse tipo de cobertura ou o jornalismo que produz tais notícias?
O reality show foi montando, quem programa as datas e o fim do jogo estão do lado de fora. O episódio dos mineiros é visto como um furo jornalístico, e dos grandes. Até um acampamento intitulado "Esperança" foi montado por jornalistas do mundo todo. Num piscar de olhos, os 33 trabalhadores da mina San José se tornam celebridades. E pensar que antes eram meros mineiros, agora estão no centro do mundo. E pergunto, será que algum jornalista contou a história desses trabalhadores antes de acontecer esse episódio?
O espetáculo ainda continua...
O reality show foi montando, quem programa as datas e o fim do jogo estão do lado de fora. O episódio dos mineiros é visto como um furo jornalístico, e dos grandes. Até um acampamento intitulado "Esperança" foi montado por jornalistas do mundo todo. Num piscar de olhos, os 33 trabalhadores da mina San José se tornam celebridades. E pensar que antes eram meros mineiros, agora estão no centro do mundo. E pergunto, será que algum jornalista contou a história desses trabalhadores antes de acontecer esse episódio?
O espetáculo ainda continua...
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
Nenhum lugar
Como é difícil escrever, principalmente quando estamos superficiais. E me perguntou se o superficial cabe neste blog. Não sei, às vezes pareço estar tão recheada, como um bolo de chocolates em um aniversário de criança. Mas no fundo, quando me questione sobre algo, acabo percebendo que aquele equilíbrio já não é o mesmo, que o olhar mudou, está débil e vazio. Eu sempre digo e tomo como verdade que através da reflexão nos tornamos seres ativos e que de alguma forma pulamos para fora do conformismo, daquela cadeira velha que a tempos está em nossas bundas. Mas duvidar de algo ou questionar, por exemplo, sobre o lugar em que você coloca o seu namoro, família, amigos, nos causa medo, pois desse questionamento paramos em outro lugar, um sítio diferente daquele que estávamos. Dessa forma, podemos reconstruir.
Ontem assisti o filme "Comer, rezar, amar" do diretor Ryan Murphy. Algumas cenas são piegas, e como falar do cotidiano, do amor e de si mesmo sem ser cafona, brega?! Não quero fazer uma crítica ao filme, nem descreve-lo. Quero dizer que os vários temas discutidos no filme como liberdade, conformidade, equilíbrio, auto-conhecimento, casamento dentre outros, fazem parte do nosso "tal cotidiano".
Por último, preciso falar que a personagem principal, interpretada por Julia Roberts, nunca se encontrou em seu casamento, em seus afazeres cotidianos. Ela sempre parecia seus parceiros, sendo um cópia de seus gostos e crenças. Porém, ela resolve viajar e largar tudo para trás.
E aí está a primeira lição do sábio Ketut: esteja bem com você mesmo, se conheça. Você pode viajar para milhões de lugares, ter dinheiro ou qualquer coisa do tipo, se você não estiver bem, qualquer lugar pode ser, simplesmente, um vazio.
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
O problemático estado de ausência da onipresente Rede Globo na cobertura eleitoral
Por Ana Beatriz Noronha, Ana Carolina Meirelles, Natália Goulart e Raísa Geribello
Domingo, três de outubro de 2010. Dia de eleição. O dia amanheceu, como de infeliz costume, com as ruas impregnadas de papeis tomando suas esquinas, ocupando seus bueiros. O clima impreciso – céu parcialmente nublado, temperaturas categóricas, ventos inesperados - e oscilando na maior parte dos estados brasileiros parecia refletir o espírito nacional de algumas incertezas cravadas, muito embora as pesquisas determinassem já os rumos futuros.
Em todos os canais, das mais diversas emissoras - cada um à sua maneira e linguagem – via-se refletido em suas programações o cenário nacional permeado pela eleição. No entanto, a despeito de toda a cobertura, desde entradas ao vivo à debates propostos por cada veículo, a emissora TV Globo, que se destaca por sua abrangência ideológica no país, tranquilamente reproduzia a morbidez do sempre, velho e taxativo Domingão do Faustão.
Durante todo o período eleitoral, o telespectador de emissoras como Bandeirantes, TV Cultura, TV Câmara e Rede TV, acrescentava ao seu repertório político informações que davam suporte a reflexões sobre a conjuntura nacional. Enquanto essas emissoras entrevistavam políticos, sociólogos, jornalistas e economistas, o Faustão entrevistava Mariana Ximenes e mostrava ao seu telespectador a importância da novela no Brasil.
Já que a esperança é a última que morre, espera-se que a mesma emissora que noticiou o movimento Diretas já, como sendo uma grande festa em comemoração aos 430 anos da cidade de São Paulo, retire o nariz de palhaço, avise ao seu público que o picadeiro será desmontado e faça jus ao seu belo discurso jornalístico comprometido com a sociedade.
Cidadania. A gente se vê por aqui?
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