quinta-feira, 1 de abril de 2010

Tirei

Ficou alguns resquícios


Tirei, estou fora

Meu olhar é externo

Aquele cheiro de suor, aquela dança sensual

Nudez

Remédios que ficam só a olhar

Foi embora para ser outra coisa

Tirei

Saiu de mim

Não é pra mim

domingo, 24 de janeiro de 2010

Cercadinho






Você olha para cima?
Seu olhar é uma régua?

Aposto que existe vários prédios que você nunca sequer notou. Surpreso você diz: "nossa, nunca vi esse daí"
E você passa ali todos os dias... 

VocÊ olha para o chão?
Está cheio de "animais" se arrastando, um sem as duas patas sentado em um skate, outros com a barriga grande de tanto não comer... alguns até babam e imploram migalhas.

Você sabe quem são os animais?
O chão é seu habitat...

A régua te persegue... dê um salto... o cercadinho é menor que você...



sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

búh


Tanto alvoroço
Cara feia
Chuva escorrendo pelas ondulações dos corpos
Um chá de Barata Ribeiro
As bolas do céu parecem não querer parar de cessar
O que se ouve são conversas de botequim
pessoas correndo
E me pergunto, estamos de férias?
SIM
SIM
E aquelas outras?
NÃO, NÃO SEI
O peso da mochila marca a pele quase morena
Até aqui somos seres sem lugar
Perdidos
É só olhar para o lado
Cara feia - goiaba estragada
Agora
Instalados
Abrem-se os dentes
Enquanto isso...
O motoqueiro desse do veículo habitual
E diz: "fui do oiapoque ao chuí"
Ele não está de férias
E não deve ter ar condicionado em casa
Enquanto isso...
EHHHH "trabalhador brasileiro"
E nós, mais uma vez, fechamos os dentes
Ainda estamos de VACATION
E aqueles outros e outras?

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

A rua que tem zoom!


Preta e branca, colorida, zoom, zoom, zoom, zoom – Google Earth. Antes, num tempo em que a máquina fotográfica era um trambolho, coberta de panos pretos, o homem se escondia no labirinto de ângulos, BUM! Escutava um estrondo esfumaçado – a foto. Com o passar dos séculos, a câmera só foi diminuindo, o barulho nem se escutava, podia ver no interior da casa a dona Gessy com seu avental vermelho fazendo pão de queijo, ou fotografar o olho azul com rabiscos cinza da Cristina (filha do Gasparino) sentada na calçada. Depois, num toque sutil, com o dedo indicador encostado no mouse, a cidade chamada Serra do Salitre (MG), e com um leve girar, a rua Capitão Luís Manoel. E adianta tanta parafernália inventada com o passar dos anos? Onde está a ultrapassada máquina escandalosa? Por onde anda as máquinas minúsculas? Dentro de uma gaveta cheia de poeira, jogadas no lixo e esmagadas pelo caminhão da Prefeitura, ou entregues aos seus filhos. A rua, que fora de terra, de cascalho, de asfalto, ainda está lá. Tranqüila, tomada de uma simplicidade tamanha, viva, acolhedora de passos sofridos dos moradores. A rua tem cheiro de mãe, de criança, de velhinho, de escola, de açougue, de praça. Um ar que exala comida de vó – arroz quentinho, feijão fresco, ovo frito e de sobremesa – bolo de fubá. De dia passam alguns carros, carroças guiadas por cavalos cansados, a caminhonete do homem que vende pamonha. A noite, se ouve o barulho das árvores, os vizinhos conversando na janela, ás vezes um jantar para comemorar a festa da cidade. A rua Capitão Luís Manoel tem nome de autoridade, mas mandona ela não é. De tanta mansidão parece que nada evoluí, nada tem zoom. Para provar o quanto essa rua está recheada de significados e transformações, a frase de Milton Santos cai bem - “Cada lugar, é à sua maneira, o mundo”.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Vida ausente



A vida em algumas situações parece parar no chão, como chicletes jogados pelas crianças saindo da escola, ou como pedras no meio do caminho tão faladas por Drummond.
Em certos momentos a fluidez do cotidiano que tanto nos incomoda não parece estar mais lá. O barulho dos vendedores de frutas passando pela rua , o homem do caminhão apertando a buzina no ritmo acelerado de uma música, gente correndo atrás do ônibus, o som da luz vermelha do carro da polícia.

Toda fúria e celeridade da vida se acomodoram no sofá da sala. Ao lado uma mesinha verde de madeira, no centro um baralho e o chá gelado dentro de uma caneca preta de anos a fio. O pijama no corpo o dia todo representa sinais de poucas passagens pelo banheiro seco. A casa tão solitária se esconde no meio de tantas outras, a cor vermelha do muro já não chama atenção dos vizinhos, que meses atrás, elogiavam o bom gosto da pintura. O jardim tão bem cuidado, agora se enche de folhas secas caídas da árvore em frente ao portão.


E a vida que ali no sofá de couro rasgado pelo tempo era tão enraizada, recebe o sol que entra todos os dias da janela colorida, as vezes tímido, outras estonteantes.
Na mesinha verde de madeira a flor que não tinha forças se movimenta todo amanhecer do dia, remexendo suas folhas verdes no balanço da música tocada pela vitrola marrom.
O olhar do velhinho de cabelos brancos abraça a vida. E a vida que ficou uns tempos ausente volta a abraçar o velhinho.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Saia já daí.


De tanto olhar...
você se derrete
você se apaixona
você se concentra
você cresce
você vive
você dilata

Algumas vezes, de tanto olhar, você não enxerga.
não tem graça
não tem nada
não tem cheiro.
não tem cor
é monótono

Mas de repente, de tanto olhar, você que agora não vê.
Curva-se diante de tudo o que te rodeia.
Vai perdendo forças.
Acaba dentro do próprio círculo.

E aí...
você espera,
organiza os livros na estante,
arruma os sapatos no guarda-roupa,
separa as roupas preferidas, ou melhor, jogue algumas fora.
Lave a varanda com sabão, e depois escorregue.
Saia na chuva.
Escute uma boa música.

Depois...
de tanto esbugalhar, pule fora do círculo.